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A poética sertaneja sempre foi dominada pelo sexo masculino, em detrimento das várias poetas que existem no sertão nordestino. O que leva a crer, os incautos, e inexistência de tais poetas. Aqui destaco duas, dentre tantas outras, que poetizarão e poetizam, pelo sertão afora.
Rafaelzinha, de São José do Egito, é uma delas. Não tenho conhecimento se cantou de improviso, mas, seus versos são de um lirismo que impressiona. A outra é a poeta repentista Mocinha de Passira, que, ainda em atividade, é, na minha opinião, pouco valorizada e reconhecida, tanto pela bagagem poética, quanto pelo seu histórico no mundo da cantoria. Seguem duas estrofes, uma de cada, destas duas grandes poetas sertanejas.
Mocinha
Amor é vinha servido
Em alva taça pequena
Quem bebe pouco quer mais
Quem bebe mais se envenena
Quem se envenena de amor
Morrendo Deus não condena.
Rafaelzinha
Quem quiser sentir saudade
Faça do jeito que eu fiz
Vá para um lugar distante
Sem querer como eu não quis
Fique sem poder voltar
Que depois você me diz.
Numa amizade, que surgiu ainda na infância, os poetas, Manoel Filó e Zé de Cazuza, edificaram uma relação de respeito, confiança e poesia sobrando. Criaram, juntos ou separadamente, grandes obras da poética sertaneja universal. Durante muitos anos, foram amigos inseparáveis. Viajaram muito pelo sertão afora, atrás de cantorias, de novos poetas e com isso, alargando também, seu rol de amizades. Durante uma dessas viagens, vinham com destino ao Recife, e para passar o tempo na viagem, cantavam de improviso, de onde saíram estes dois, de tantos, belos versos no tema Depois da morte do dia.
Vale dizer, que os versos, de ambos, foram decorados por Zé de Cazuza, conhecido também, como O gravador humano, por conta da facilidade que tem em arquivar no juízo aquilo que lhe desperta o interesse.
Zé de Cazuza
Nesta hora o peregrino
Muda a marcha do andar
Baixa um profundo pesar
Na alma do assassino
Na igreja um velho sino
Saúda a Virgem Maria
Uma mãe na moradia
Beija uma filha que preza
Num casebre um velho reza
Depois da morte do dia
Manoel Filó
Numa cerca de aveloz
Depois do sol amparado
O vaga-lume assustado
Fica testando os faróis
Os pescadores de anzóis
Embocam na água fria
Ficam naquela agonia
Se uma piaba belisca
Termina roubando a isca
Depois da morte do dia
Não temo em ser redundante em falar, recorrentemente, do sertão. É a minha terra de origem. Lá estão as raízes de minha arvore genealógica. Avós, pais, irmãos e toda minha família, materna e paterna.
O que escrevo, tem as duas faces. Nestes versos, retrato os dois quadros mais comuns naquela região; A seca, que castiga a maior parte do tempo. E o inverno, que quando vem, é festejado como um parto.
Seca
Sertanejo se acocora
Se encosta numa estaca
Vendo a chuva pouca e fraca
Vendo o mato que descora
Põe a mão na fronde e chora
Lamentando seu destino
Mas é no bater do sino
Quando a noite vence o dia
Que roga a Virgem Maria
Por seu povo nordestino.
Inverno
Sertanejo se acocora
Bem em frente do baixio
Espantado com o rio
Que a cerca leva embora
A enchente não demora
Cai a água em proporção
Ouve-se a voz do trovão
O nosso pai da coalhada
Quando é de madrugada
Tem planta nova no chão.
Sou um sertanejo, essencialmente, urbano. Minha vivencia rural, vem de um breve período, ainda na infância, que passei no sitio da minha Tia Maria e do meu Tio Zezim Moura – um grande amante do repente – período ainda nítido na minha memória.
Vivi e vivo os dois mundos, sou apaixonado pelo rural e, incondicionalmente, impregnado pelo urbano. A poética de ambas as vivencias, me alimenta a alma em proporções gêmeas.
Descrevo aqui dois poemas do universo do verso urbano com os quais me identifico, de dois poeta que li pouco mas que me impressionaram no pouco que li.
Política literária
O poeta municipal
Discute com o poeta estadual
Qual deles é capaz de bater o poeta federal.
Enquanto isso
O poeta federal tira ouro do nariz.
Carlos Drummond de Andrade
Classe média
Um médico
Ótimo na família.
Um engenheiro
Um arquiteto
Um magistrado
Ótimo
Um poeta
Melhor na família dos outros.
Geraldino Brasil